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quarta-feira, 29 de março de 2017

O tempo das dores

Há tantas razões para agradecer e tão poucas para reclamar, mas nós nos concentramos nas pequenas infelicidades

Ou será que deveríamos dar como título “O mundo das dores”? Preferimos usar “o tempo” devido à sua relatividade. É algo que na verdade não existe e só é percebido pelas mentes humanas, especialmente enquanto encarnadas. É comum nas reuniões de doutrinação de espíritos ouvirmos alguém que desencarnou há muito tempo, séculos inclusive, referir-se aos episódios passados como sendo agora. Relata seu dia a dia vivido em tempos remotos como se os fatos estivessem ocorrendo naquele momento. Poderíamos dizer que ele se perdeu no tempo ou se perdeu do tempo!

Tudo é um constante vir a ser e nada sofre interrupção por acontecimentos do cotidiano que, às vezes, por nossa pequena capacidade de raciocínio, os definimos como tragédias. Todos os dias o sol do oriente se transfere para o ocidente, trocando de lugar com a lua, para no dia seguinte retornar como o fizera na noite passada; desde que o mundo é mundo e o será por toda a eternidade. Um dia nosso planeta desaparecerá, porque tudo o que nasce um dia morre, dure mais ou dure menos. O espírito, ao contrário, é imortal, por isso sobreviveremos.

Hoje, o assunto da mídia, das esquinas, dos lares, da sociedade, é a crise. Ninguém percebe que é uma crise igual a que vivemos desde outros tempos: para os pobres, deserdados e explorados; para os preguiçosos que se abatem e se entregam ante as menores dificuldades; para os fracos que desejam obter tudo com facilidade.

A crise real a ser lamentada é a crise de moral e de vergonha que graça na humanidade e que tão notada nesta maravilhosa terra do Cruzeiro.

Há tantas razões para agradecer e tão poucas para reclamar, mas nós nos concentramos nas pequenas infelicidades. Temos mente sadia e podemos traçar nossa própria diretriz; no entanto não percebemos que só por isso somos felizes. Quando nascemos, nossos pais certamente ficaram ansiosos para nos ver e conferir se estávamos perfeitos. Uns estavam inteiros fisicamente, outros não, mas todos estavam completos como almas eternas e poderiam aproveitar a sua encarnação mesmo tendo limitações físicas. Por isso as redes sociais amiúde exibem vídeos de deficientes que têm membros de menos, inclusive cegueira, mas que abrem seus próprios caminhos como tenacidade e vivem com alegria, agradecidos pela vida dando exemplo aos que são fracos.

Neste mês, recordamos do Codificador Allan Kardec, mais uma vez, porque foi em 31 de março de 1869, com pouco mais de sessenta e quatro anos, que ele desencarnou pelo rompimento de um aneurisma. Fulminado, quando cheio de entusiasmo, preparava a mudança da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas para um lugar mais amplo, a fim de dinamizar a divulgação do Espiritismo. Por que sua vida foi ceifada num momento tão importante para ele e para a humanidade, que tanto bebia das revelações trazidas pelos espíritos por seu intermédio? Certamente porque o tempo que ele tinha para a tarefa a que veio havia se esgotado e também porque o que havia sido revelado já era suficiente para um grande avanço na sociedade do nosso tempo que, infelizmente, ainda não aplica no dia a dia a sabedoria proposta pelos espíritos.

O estudo sério, assíduo e sequenciado desta Doutrina leva o homem a um entendimento sobre si mesmo que ele jamais havia tido. Nenhuma explicação para a morte é tão lúcida como a informação espírita. Tudo é consequência de atos anteriores, na aplicação clara da lei de ação e reação que tem fortes implicações quando se trata de gestos espirituais. Causa e efeito ou semeadura e colheita seriam sinônimas da primeira. Ninguém sofre pelos males causados pelo outro, nem paga dívidas que não haja contraído. Já disse Jesus aos seus seguidores quando lhe perguntaram sobre o cego que ele havia curado se o pecado fora dele ou dos pais. Jesus explica que vinha de vida passada. Como esclarecimento diante de leigos, Ele disse que nem ele nem os pais eram causadores daquele mal, mas era preciso que a lei se cumprisse. Fala claramente de erros anteriores daquela mesma alma que agora habitava outro corpo.

O mundo das dores ou o tempo das dores têm mais a ver com as ações que geram consequências más, do que fatalidade ou algo imprevisível ou ocasional. É como na lição que explica que a boa árvore é conhecida pelos frutos que produz e vice-versa.

Nenhum de nós precisa temer a crise, desde que se empenhe com esforço e honestidade na conquista de suas necessidades, comedidamente, sem ganância desenfreada. E da mesma forma que a felicidade não está na chegada, mas no trajeto, se lutarmos por algo e não tivermos sucesso já ganhamos a experiência resultante da luta e do esforço. Será a nossa maior conquista. Essa o ladrão não rouba, a ferrugem não corrói, a traça não come e os regimes políticos não conseguem destruir. Como daqui a pouco vamos embora, qualificamo-nos a voltar mais competentes e com mais méritos para uma nova vida que, logo mais, teremos que viver. Se formos agentes ativos na melhoria do mundo nos qualificamos a viver num lugar melhor que este do qual tanto reclamamos. E ele não tem culpa, pois é o reflexo dos homens que o habitam. O mundo em que vivemos é a soma das consciências humanas. Se bem observado, considerando-se a maneira como o tratamos, ele até que é bastante generoso com esta mal agradecida humanidade tendo que se recuperar todos os dias para sanar as destruições causadas pelos homens.

Não fale em crise. Sorria a produza. Produza bens, produza amigos, amor e simpatia. Tenha a consciência em paz e tudo o mais deixe por conta de Deus. Ele resolve.

Texto publicado no site de O Clarim, por Octávio Caúmo Serrano (caumo@caumo.com) em 01/03/2017

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