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segunda-feira, 4 de abril de 2011

'As Mães de Chico Xavie'r – A saudade em dois mundos

Ao contar as histórias de três mães com as suas dores entre a aceitação da morte e a concessão à vida, As Mães de Chico Xavier mescla o tempo, a memória e a saudade como atributos da existência e que o ser humano não é o dono de seu destino.

Qual a razão para a existência humana se ela está carregada de tanta dor e a morte é a maior delas? A pergunta tem inquietado os filósofos desde a antiguidade. Sócrates e Platão trataram o mundo, a vida e a morte em reflexões sobre a existência de um mundo espiritual, de onde vem o nosso espírito e o qual ocupa o corpo, para depois retornar ao mundo original a fim de retirar as “impurezas” adquiridas da vida material. As bases desses temas são encontradas em Fédon e Fedro e também em O Livro dos Espíritos e Céu e Inferno, de Allan Kardec – daí os gregos serem considerados os precursores do espiritismo.

Não há como negar, As Mães de Chico Xavier se coloca neste questionamento espiritual-filosófico, mas tachá-lo de doutrinário espírita se torna uma maledicência, a qual levará de roldão para o interior dessa classificação obras do passado como Ben Hur, A Maior História de Todos os Tempos e A Última Tentação de Cristo, entre outros, como tais.

As Mães de Chico é, em primeiro plano, um drama sobre a dor da perda, e, no contexto, da existência materialista se abrindo para uma busca de respostas sobre o sentido da vida e da morte. Ruth (Via Negromonte) e Elisa (Vanessa Gerbelli) choram e amargam as dores da perda de seus filhos em circunstâncias diferentes. Não entendem como eles se foram tão de repente, cuja falta de aviso prévio abre um fosso em suas vidas. Lara (Tainá Muller) vive inicialmente o drama de estar despreparada para uma gravidez indesejada e indecisa entre o aborto e a concessão à vida, depois, da perda do amor que dói na alma. Em comum às três mulheres, em circunstâncias diferentes, um fator cruel: o inesperado. Como lidar com ele?

O contexto do bem amarrado roteiro de Emannoel Nogueira e Glauber Filho, traz para dentro da história outros elementos como a passagem do tempo e a memória do passado (as fotos dos filhos, as roupas, os objetos pessoais), as quais se agarram às personagens como o martírio de numa jornada sem fim. As nuvens e o céu, captadas em algumas passagens, fazem a metáfora da impossibilidade do controle humano sobre o seu próprio destino. Parece sinalizar a existência de uma força maior acima disso.

A revelação dessa “força maior” se expressa na frase de Chico Xavier (Nelson Xavier), quando ele diz a sua fiel Kátia Maria, diretora assistente da Casa da Prece, que a saudade é uma dor que machuca nos 2 mundos. É a partir desse diálogo que o filme passa a dar ênfase ao médium Chico Xavier e seu trabalho de caridade na comunicação entre os vivos e os em saudade. O jornalista Karl (Caio Blat), serve como ponte para a exposição do trabalho de Chico e, também, trazer até ele os demais personagens. É com ele que Ruth, Elisa e Lara, assim como seus maridos e amigos, Mario (Herson Capri), Guilherme (Joelson Medeiros) e Karl, respectivamente, vão obter suas respostas e se livrarem das dores e desencanarem o tortuoso sentimento de culpa.

O enredo enfatiza temas como determinismo, instrumento e missão. A compreensão da morte como uma passagem entre vidas e mundos, no entanto, se ressalta como o maior dos valores contidos no filme, o qual tem, sim, suas falhas – a desigualdade da montagem, ausência de uma melhor elaboração visual, a sofrível interpretação de Joelson Medeiros -, as quais, no entanto, não afetam a estrutura do espetáculo.

De forma cinematograficamente notável, As Mães de Chico Xavier se exalta no fechamento de suas três narrativas paralelas, ofertando ao público o direito à emoção. Quem duvidar que pergunte às mães à saída dos cinemas. Por isso, merece ser visto à luz da reflexão sobre a necessidade do conhecimento do sentido da existência, da dor e da morte. Sem dúvida, o público o transformará num dos grandes sucessos do cinema brasileiro.

Por Pedro Martins, Diário do Nordeste

*Notícia extraída do site da FEB

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