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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Complexo de inferioridade: por que e para quê?

Sentimento de inadequação, encontra-se na base de quase todos os transtornos emocionais neuróticos.
 
A igualdade e a semelhança.

Kardec(1) nos ensina que “Deus criou iguais todos os Espíritos e que todos tendem para um mesmo fim”. Ainda nos esclarece que “todos os homens estão submetidos às mesmas leis da Natureza e não concedeu a nenhum deles superioridade natural; todos, aos seus olhos, são iguais”.
 
Notemos que os homens são iguais (idênticos) em suas essências, mas apenas semelhantes (parecidos) no mundo em que vivem, quando exteriorizam as suas características, as suas aptidões, traduzidas por diferenças. Ser igual e ser diferente parece um paradoxo, mas não é quando estudamos as leis divinas.
 
Kardec(1) também nos esclarece que “os Espíritos foram criados iguais, mas cada um vive mais ou menos tempo e, consequentemente, tem feito maior ou menor soma de aquisições”. Eis as diferenças entre os Espíritos encarnados em nosso mundo.

 
Com o nosso corpo físico também ocorre a mesma coisa. Dois corpos são idênticos em suas formações e constituições físicas, porém cada corpo em evolução apresenta as características específicas para cada etapa do seu crescimento e desenvolvimento. São iguais na essência da matéria, mas, ao mesmo tempo, diferentes no que exteriorizam. As diferenças frequentemente apontadas entre os seres humanos são secundárias, como exemplos: a raça, a religião, os costumes, a diversidade cultural, os bens materiais adquiridos, posição social; enfim, as condições sociais e de desenvolvimento onde se encontram.
 
Através destas diferenças – características físicas e aquisições espirituais – o homem (corpo e Espírito) é único. Esta somatória evolutiva dá a cada um a personalidade própria, única, individual, que o faz diverso de todos os outros. Não existem dois homens iguais, são apenas semelhantes, mesmo nos casos de gêmeos univitelinos (idênticos). Mas, os Espíritos, mesmo observadas as diferenças evolutivas, são igualmente portadores das potencialidades e das possibilidades para alcançarem o objetivo final traçado por Deus – a perfeição.
 
Complexo de inferioridade
 
Por complexo entendemos ser um grupo de ideias e sentimentos conscientes intervinculados que exercem efeitos dinâmicos sobre o comportamento. Na psicanálise de Freud, os complexos de castração e de Édipo são os únicos encontrados; já os de superioridade e inferioridade foram propostos por Adler(²) para descrever um grupo de ideias e sentimentos que surgem como reação ao sentimento de inferioridade ou superioridade relacionado com o organismo como um todo. Na atualidade, o termo inferioridade designa um sentimento de inadequação, ficando mais apropriado para a sua compreensão.
 
A inadequação ou falta de adaptação é a incapacidade que tem um indivíduo de agir efetivamente sobre o meio ambiente. Nesta ação ocorre a falta de discriminação entre o que vê exteriormente e a percepção real daquilo que viu. Essa visão distorcida interfere no seu próprio EU e, consequentemente, no seu modo de viver.
 
Adler(²) ainda disse que o sentimento de inferioridade, seja qual for a sua origem, é um fenômeno natural, desde que não invada e dirija todo o psiquismo de modo permanente, impedindo o seu portador de qualquer tentativa de sucesso em novos empreendimentos e conquistas. Se isto acontecer, estamos diante de um complexo de inferioridade. Encontra-se na base de quase todos os transtornos emocionais neuróticos.
 
As respostas ao complexo de inferioridade podem se dar de várias maneiras. Citamos duas: ou responde com um conjunto de indecisões, hesitações, dúvidas, receios, medos intensos, isolamento social e sintomas emocionais de toda espécie; ou utiliza um mecanismo de compensação e passa a agir como se tivesse uma superioridade. Neste caso, as atitudes são perigosas, pois se sente superior em suas capacidades em relação aos demais, se envaidece, tem exigências exageradas para consigo e para com os outros, podendo ainda ter conduta tirânica e humilhar as pessoas com quem convive. Torna-se vaidoso, pedante, arrogante, egoísta e antipático.
 
De um ou de outro modo, a inferioridade atuante é um desequilíbrio psíquico e se exterioriza através de sintomas emocionais de leves a graves. Impossibilita o portador de uma vida adequada, dando-lhe insegurança, ansiedade e, ao mesmo tempo, a consciência que deve mudar o seu modo de agir. Por isto que muitos procuram ajuda de profissionais especializados.
 
É comum no mundo moderno, fonte inesgotável de estímulos materialistas, a competição e a comparação entre as pessoas e muitas têm isto como roteiro no seu modo de viver, alimentando ainda mais o complexo quando presente.
 
Por que a inferioridade?
 
O sentir-se inferior tem raízes profundas no inconsciente, nos traumas ocorridos no passado do Espírito que interferem na formação da personalidade atual e, em cada momento, com as atitudes errôneas perante a vida, que acabam sustentando a inferioridade.
 
É interessante notar que as inibições aparecem quando a pessoa tem a ideia que existem pessoas muito diferentes de si, algumas melhores outras piores. Para as piores é dado pouco valor, pois não a afetam tanto, embora muitas vezes podem até estimular o orgulho e o egoísmo por se achar superior a elas. Em relação às melhores é que a coisa se complica e pode se instalar o complexo de inferioridade.
 
Chamamos a atenção quando dissemos que todos os homens são iguais em suas essências, que as suas diferenças são adquiridas com a evolução e que todos têm as mesmas possibilidades para seguir no caminho do bem – da perfeição. Então: por que se sentir inferior? Lembremos que o complexo de inferioridade comumente surge de atitudes equivocadas perante a vida, como: uma imaginação fantasiosa do que realmente ela é, uma dificuldade de suportar e enfrentar o insucesso, um receio frente às exigências da sociedade, um exagero de exigências contra si próprio, sentimento de incapacidade que intimida quando se compara com o outro, dúvida da sua potencialidade etc. Esses equívocos provocam a baixa autoestima, núcleo de quase todos os transtornos psicológicos.
 
Como enfrentar a inferioridade?
 
Toda mudança na estrutura psíquica e comportamental não é nada fácil. Para se renovar é necessário força de vontade, perseverança, fé, conhecimento e, em especial, autoconhecimento, que podem quebrar o circuito de ideias fixas e levar o homem a novas conquistas e à autoconfiança.
Nesta luta árdua, a percepção da vida deve ser clara. A vida não pode ser aquela imposta pelos padrões da sociedade que, muitas vezes, é inacessível e bloqueadora do verdadeiro modo de ser. A vida é simples, muito mais do que se imagina.
 
O complexo de inferioridade tem estado presente em pessoas com reincidência de insucessos. Primeiramente, uma análise criteriosa destes pode ser de grande valia. Nesta ação, a responsabilidade e a participação nos insucessos devem ser revistas. Não se deve recuar e sentir medo diante deles. Devem ser encarados como aprendizagem.
 
É interessante lembrar que o complexo de inferioridade pode surgir das comparações do indivíduo com um outro ou com um modelo perfeito idealizado – o superior. Nesta comparação é esquecida a condição que o superior depende do inferior para a sua evolução tanto espiritual quanto material. Muitas tarefas que o indivíduo inferior sabe, o superior não sabe e necessita delas para evoluir; do mesmo modo o inverso. Entendendo desta forma ocorre a consciência do próprio valor, mesmo trazendo na mente que existem diferenças entre os seres e os seus valores e que todos são importantes e iguais perante os olhos de Deus. Deste modo, clareia-se a visão e a percepção do mundo.
A conscientização do limite próprio, a humildade para dar (ao inferior) e receber (do superior) são imprescindíveis na transformação íntima.
 
Kardec1 nos orienta assim: “o homem que tem consciência da sua inferioridade, haure consoladora esperança na doutrina da reencarnação. Se crê na justiça de Deus, não pode contar que venha a achar-se em pé de igualdade com os que mais fizeram do que ele. Reanima-lhe a coragem e a ideia de que a inferioridade não o deserda do supremo bem e que, mediante novos esforços, dado lhe será conquistá-lo”. Diante destes ensinamentos, por que e para que a inferioridade?
 
Lembremos que só devemos nos julgar inferior a Deus e nos submeter à sua vontade em todos os planos da existência.
 
1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução G.Ribeiro. Brasília: FEB, 1985, questões 171, 803 e 804.
2. AKOUN, A. e cols. Psicologia Moderna. São Paulo / Lisboa, Verbo, 1978. p. 82, 83 e 84.
*Por José Luiz Condotta em O Clarim.

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