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terça-feira, 7 de abril de 2020

Artigo - Solidão

"Solidão é a ausência do outro. Solitude é a própria presença. "(OSHO)

Sentir-se em solidão é a valorização da ausência do outro na própria vida. A ausência física de alguém não deveria ser sinônimo de dor, ou de perda.

O coração humano abriga muitos afetos, e seu espaço  dimensional tem capacidade ao infinito. É o aprendizado do acolhimento da família universal, a qual aumenta na medida que se aumenta a capacidade de amar. Entretanto,  esse abrigo é de partilha, não de ocupação. E se em algum momento existe o afastamento físico,  não significa que houve um afastamento afetivo, cujos fios de ligação são imperecíveis.

Para que o fato de estarmos sós não denote solidão precisamos nos colocar no estado psíquico da SOLITUDE, quando nos permitimos um momento de estar a sós conosco mesmo. A solitude é  indispensável ao autoconhecimento; à ressignificação dos sentimentos; e às  mudanças de comportamentos escravizantes da alma,  para comportamentos libertadores. A solidão escraviza; a solitude liberta. A solidão dói; a solitude cura. A solidão conduz à tristeza; a solitude à alegria de viver. A solidão destrói; a solitude constrói.

Ideal procurarmos um espaço do dia para estarmos em solitude, a fim de educarmos nossos sentimentos, substituindo a solidão que ainda esteja assombreando nossa vida. Nascemos para a felicidade; nascemos para a liberdade; nascemos para voar em direção ao Grande Sol. Que a nossa convicção seja a de que somos frutos do Amor, e para o Amor retornaremos, na medida em que despertamos o Amor que somos.

Rosária Soares, Coordenadora de Estudo e Doutrina do LEAE

sábado, 4 de abril de 2020

Espiritualidade no dia a dia: até lavar louça ajuda na evolução interior

A espiritualidade está presente em todos os momentos da vida. Nós é que ainda não sabemos reconhecê-la

No Ocidente do tempo escasso e do materialismo opressivo, vida espiritual parece à primeira vista um assunto que só diz respeito a religiosos. Dedicar tempo à espiritualidade, pensam os leigos, é missão para algum momento no fim de semana, e com sacrifício – afinal, há prioridades como contas a pagar, obstáculos profissionais a vencer, cuidados com o lar, problemas com cônjuge e filhos…

Nada mais falso. A espiritualidade está presente em todos os momentos da vida. Basta abrir os olhos para descobri-la em nosso cotidiano, com todo o extraordinário potencial de desenvolvimento interior que ela nos traz.

À primeira vista, a ideia de lavar pratos para progredir espiritualmente parece uma grande tolice. Mas todas as tradições espirituais ressaltam a importância de sermos seres integrais – e como conseguiríamos isso ignorando o que pensamos e fazemos no cotidiano?

Conciliar espiritualidade e dia a dia não é tarefa simples em nenhum lugar do planeta. No Ocidente, o principal obstáculo é nossa cultura consumista, que impele as pessoas a buscar gratificação imediata e externa – a roupa da moda, o celular de última geração, o carro importado. Com isso, a espiritualidade fica em plano secundário, e a maior parte do tempo é vivida como se as crenças religiosas, morais ou éticas nem existissem.

Mas é impossível fugir do cotidiano. Atos como pagar contas, ir ao trabalho ou levar os filhos à escola também são espiritualmente importantes, e sem ter consciência disso não podemos evoluir. “Não dá para acertar num departamento da vida e continuar errando em outro”, afirmou Gandhi. “A vida é um todo indivisível.”

Para iniciar essa revisão do dia a dia, nada melhor do que a família. Existe lugar mais adequado do que o próprio lar para refinar a tolerância, o respeito e o despir-se de preconceitos e expectativas para ver a vida como ela é? “Se cuidarmos bem das relações com a família nesta vida, mais de 90% da nossa tarefa aqui terá sido cumprida”, dizia Martha Gallego Thomaz, falecida dirigente do Grupo Noel, instituição espírita de São Paulo.

Outro item crucial é o dinheiro, energia de troca que funciona como um excelente professor – para o mal e para o bem – no caminho espiritual. A supervalorização que o Ocidente lhe atribui conduz à ganância, à avareza, ao medo da escassez. Em seu lado positivo, porém, o dinheiro serve para disseminar prosperidade, remunera o trabalho feito com amor e, como energia, nunca deve ficar estagnado.

Entrar em contato com a espiritualidade no cotidiano exige desenvolver o que o budismo chama de atenção plena. De acordo com o escritor David Spangler, essa observação atenta e sem julgamento do que ocorre a cada instante nos leva a uma profunda consciência, que nos dá insights sobre o mundo e nós mesmos. A atenção plena nos permite reagir ao presente de modo mais espontâneo e livre.

Perspectiva ampliada

Spangler exemplifica como a atenção plena pode transmutar as atividades do dia a dia:

Pagar as contas – Preocupações e medos a esse respeito cedem espaço para um confronto com o sistema de crenças ligado ao dinheiro. Analisar essas crenças sem julgá-las enfraquece a programação mental que governa essa área e permite à pessoa optar por formas mais efetivas de agir.

Ir ao supermercado – Em vez de simples necessidade de abastecimento do lar, essa atividade passa a ser encarada como o ponto final de uma vasta rede de distribuição que liga a produção de milhares de pessoas ao seu bairro. Comprar conscientemente é também admirar-se com a abundância de mercadorias e exercitar o discernimento – selecionando, por exemplo, produtos orgânicos ou que não agridam o meio ambiente.

Educar os filhos – A tendência a impor restrições constantes à criança cede espaço para a percepção de suas facetas positivas, como solucionar problemas aparentemente além de sua capacidade ou partilhar brinquedos com os colegas sem ser instruída a isso.

Descobrir a espiritualidade no dia a dia significa ter muito mais recursos para equilibrar-se e mudar o futuro pessoal. A vida seguirá com êxitos e fracassos, mas a mente aprende, sem entrar em desequilíbrio, a extrair lições de todas as situações.

“Em tudo que uma pessoa faz é possível criar e manter um estado de ser que reflete nosso verdadeiro destino”, observa Karlfried Graf von Dürckheim no livro “Daily Life as Spiritual Exercise”. “Quando essa possibilidade é posta em prática, o dia comum não é mais comum. Ele se torna uma aventura do espírito.”

Site de PLANETA com modificações da Equipe de Comunicação do LEAE

Quarentena e autoconhecimento

Nada de corrida no parque, ida à academia, conversa com os amigos no trabalho, cinemas ou shows. Almoço com a família que mora em outra casa, então, nem pensar. O isolamento provocado pela pandemia do coronavírus já provocou mudanças no cotidiano de todos. Ali ou aqui, um pouco mais ou um pouco menos, não existe quem não tenha se readaptado à rotina.

Em outras épocas, o sábado e o domingo, os feriadões, eram sinônimo de alegria e de lazer para muitos, uma pausa no dia a dia apressado entre compromissos e trabalho. Mas agora que o isolamento tornou-se compulsório e de segunda a segunda-feira a ordem é ficar em casa é preciso recorrer à criatividade para manter a saúde mental.

Se a clausura inclui outros familiares, quem sabe não é o momento para aquela conversa demorada, com olho no olho e total disponibilidade. Acolher e escutar de forma integral. Recuperar relações que podem estar desalinhadas.

A tecnologia também pode colaborar. Mandar mensagens, enviar áudios ou usar vídeos para conversar contribuem para quebrar a rotina e fazer com o que a outra pessoa se sinta menos solitária. Quem mora só, nesse período de pandemia, pode ficar as 24 horas do dia sem falar uma única palavra, sem escutar até a própria voz. Um como vai você pode demonstrar toda solidariedade, carinho e empatia.

Por outro lado, os profissionais de saúde alertam que passar horas e horas nas redes sociais, numa ciranda de excesso de informações, pode favorecer a angústia, a sensação de incerteza e o aumento das preocupações.

O estímulo para a prática da resiliência tem sido comum. Quanto tudo passar, a reflexão sobre as relações pessoais pode vir como saldo positivo. Uma espécie de arrumar a casa e a mente, num processo de reorganização que pode levar à ressignificação. A reclusão também pode ser usada para o bem. A introspecção e o silêncio fazem parte do autoconhecimento, vital para sabermos o que realmente é importante para cada um de nós.

Leila - CVV Brasília

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Desapego

Esses dias eu li a seguinte fala do Bert Hellinger: “É um erro grosseiro pensar que os clientes querem livrar-se de seus problemas. Muitas vezes, só desejam que sejam confirmados.” Imediatamente me veio à cabeça uma frase que li há anos, do Hipócrates: “Antes de curar alguém, pergunta-lhe se está disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer”.

Lembrei-me ainda de várias pessoas que berravam um teórico desejo desesperado de se curarem, mas que fugiram raivosos quando confrontados com o que deveriam fazer para isso.

Não se enganem: curar-se envolve sentir dor (e, por isso, requer coragem). E não poderia ser diferente… Cuidar de uma ferida física requer manipulá-la, limpá-la, medicá-la e, muitas vezes, costurá-la. Por que seria diferente com as feridas da alma? E curar-se delas exige, ainda, parar de alimentá-las. Caso contrário, isso se torna um ato tão frustrante quanto o de tentar enxugar gelo.

Aonde chega uma pessoa que adoece por sentir raiva pelo pai, mas que não está disposta a ressignificar essa raiva (não para transformá-la em indiferença, mas em amor)?

E uma pessoa que tem depressão por desrespeitar a si mesma sem limitar o que solicitam dela, mas nunca está disposta a experimentar oferecer um inicialmente doloroso “não” a quem extrapola os seus limites já conscientes?

E a que está cansada de chorar, mas não está disposta a se despedir emocionalmente de quem já foi embora há muito tempo?

Elas não chegarão a lugar algum.

E todas as mágicas superficiais da moda, sejam mudanças de crenças, de vibrações mentais ou técnicas de fortalecimento de força de vontade, fornecerão, se muito, apenas uma melhora momentânea.

APEGADOS ÀS CAUSAS, ALIMENTAMOS AS CONSEQUÊNCIAS.

Como disse Hermes Trismegisto: “Toda causa tem seu efeito, todo o efeito tem sua causa, existem muitos planos de causalidade, mas NENHUM ESCAPA À LEI”. Ou seja, gostemos ou não, somos responsáveis por tudo que nos acontece… E, se desejamos mudar as consequências, precisamos, sim, nos desapegar das causas.

Não há outro caminho. 

Leandro Scapellato

domingo, 3 de novembro de 2019

Religiões interpretam a morte para compreender a vida

Diferentes culturas traduzem os momentos finais da vida como novos ciclos. As religiões amenizam o sofrimento ao defender o entendimento da morte como um percurso natural da existência

Em vida, pouco tempo é dispensado em pensamentos sobre a morte. A ideia assume um tom mórbido. A finitude acaba sendo esquecida e distanciada da realidade, quando, de fato, é parte obrigatória da própria existência humana.

No Dia de Finados, a sociedade é confrontada com essa percepção, seja no desejo de homenagear entes queridos que se foram ou ao observar a movimentação na cidade, que ganha um fluxo diferente dos demais com as muitas visitas aos cemitérios. A data é marcada no calendário católico, mas seu simbolismo também reverbera por outras religiões. Dentre tantas, sete têm em comum a ressignificação da morte, e oferecem amparo aos fiéis em momentos de luto.

Ao invés de um motivo para tristeza, a morte pode ser uma oportunidade de celebrar o que foi feito de bom durante a vida. Essa é a interpretação budista, conforme explica Gislene Macêdo, que atua como facilitadora no Centro de Estudos Budistas Bodisatva (Cebb), no bairro Meireles.

Falar sobre a morte, na perspectiva budista, significa abordar também a forma como se vive. Ao viver de um modo bom - ou seja, trazer benefícios aos seres e não causar sofrimento - o momento da morte é acompanhado da sensação de dever cumprido, permitindo que as pessoas "se desprendam do corpo de forma mais suave". Os praticantes do budismo acreditam na possibilidade de renascer.

Gislene Macêdo considera que a morte nos coloca diante da "impermanência". A facilitadora recomenda refletir enquanto há tempo. "Não pensamos que vamos morrer, a gente tende a ignorar esse fato. Vivemos como se não houvesse amanhã. Aprendendo a morrer, a gente aprende também a viver", explica.

Reencarnação

O aprendizado marcou o processo de identificação de Fernando Bezerra com o espiritismo. O vice-presidente do Instituto de Cultura Espírita do Ceará (ICE) cita a prática do bem, da caridade ao outro, e entender o próximo como irmão, independentemente do pensamento religioso, como os fatores que mais o atraíram durante o primeiro contato com a religião.

"Foi a doutrina espírita que me deu uma ideia muito mais abrangente das religiões que existem no nosso planeta, e entender cada uma delas como fase nossa de aprendizado", diz. No espiritismo, não há um culto à morte ou desapego à vida. O objetivo, segundo Fernando, é entender o que representa a vida física para o seu processo de evolução como espírito. "A morte, para o espírita, é uma transformação. Ele sai da vida física e vai para a vida espiritual. A separação daqueles que se amam, no mundo das formas, faz parte de um processo natural".

Embora a saudade atinja o espírita como a qualquer outra pessoa, por compreender a doutrina, o praticante não se desespera, nem se sente "injustiçado perante as leis divinas". Entende que a morte é uma passagem de grande importância para o desenvolvimento espiritual.