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quarta-feira, 19 de junho de 2019

Ouvir uns aos outros

Em razão dos altos índices de suicídio, resolvemos, já há alguns anos, estudar mais profundamente o tema. Então, escrevemos, junto com dois amigos, Arlindo e Alfredo, o livro Evite a rota do suicídio, mas não paramos por aí no estudo que aborda a temática, e, após o livro, comecei a distribuir um questionário para que aqueles que pensam no autoextermínio respondam, e, então, a partir das respostas, elaborarmos estratégias para, quem sabe, diminuir a dor de quem pensa em suicídio e evitar a extrema atitude.

Uma das perguntas que faço é quanto ao tipo de problema que a pessoa mais tem dificuldade em lidar. Relacionamento amoroso, familiar, problema profissional, financeiro, de saúde ou outros? Qual seria o problema que mais apoquenta e gera intranquilidade à alma humana?

A esmagadora maioria das respostas aponta que o problema mais difícil de lidar é o familiar. Problemas financeiros aparecem atrás do familiar e relacionamento amoroso. Considero, ao menos curioso, o fato de problema de saúde ter sido pouco citado. Falemos, então, deste agente gerador de sofrimento que são os problemas familiares e que colaboram para que a ideia suicida se faça mais presente na sociedade.

A família é o ponto fundamental para nosso desenvolvimento como seres em evolução. É na família que experimentamos as primeiras noções de afeto, disciplina, organização, vivência e troca de experiências com o outro. A família prepara-nos para viver em sociedade. É na família, ou ao menos deveria ser na família, que descansamos nossa cabeça fatigada pelas lutas e embates do dia a dia, próprios de um mundo de expiação e provas.

Porém, quando na família encontramos rejeição, censura, falta de afeto, tendemos a deixar com que a amargura ganhe espaço em nossa existência. Ficamos ressentidos, e isto, ao longo dos anos, toma uma proporção tão grande que, claro, aliado a outros fatores, faz com que a ideia suicida comece a fazer morada em nossa casa mental.

Na questão 775 de O Livro dos Espíritos, Kardec indaga aos Espíritos que o assistiam sobre o resultado do relaxamento dos laços de família, ou seja, a perda desta referência familiar, e os Espíritos respondem que seria o aumento do egoísmo. O raciocínio pode ser aplicado da seguinte forma: ao apertar os laços de família aumentamos o nosso pensar no outro, proporcionando aos familiares aquilo que a família deve ser: local de aprender e reconforto diante das provas cotidianas.

Uma família atuante, que, como se diz no jargão popular, está “colada”, é um dos fatores que faz com que as pessoas se sintam amadas, queridas, tenham um ouvido amigo para desabafar e, este, naturalmente, é um fator que ajuda na prevenção ao suicídio.

Óbvio que não se pode colocar nas “costas” da família a responsabilidade pelos suicídios que abundam nos quatro cantos do mundo, mas é inegável que uma boa família, com problemas naturais, mas que aperta os laços de convivência e foca no amor de uns para com os outros, oferece mais condições para uma vida menos sofrida.

Talvez você que teve um familiar vitimado pelo suicídio se sinta chateado com este texto, todavia, peço que não o encare como uma forma de censura ou crítica, porque, como dito acima, há fatores e fatores que levam o indivíduo a cogitar do suicídio, tais como os transtornos mentais, problemas relacionados ao uso de drogas e uma gama de outras coisas.

A ideia aqui é, por meio deste estudo realizado, mostrar que o problema mais difícil que a maioria das pessoas enfrenta é o problema familiar, e que, segundo os Espíritos, nós podemos estreitar esses laços de família para que as pessoas se sintam agasalhadas pelo amor e escutadas em suas questões fundamentais.

Se uma vida sem problemas é impossível, que ao menos possamos estreitar os laços de família e “ouvir uns aos outros”, deixando a existência um pouco mais leve e saborosa de se levar.

Por Wellington Balbo publicado no site O Consolador.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Como vai a nossa capacidade de ouvir?

Independentemente do imediatismo e senso de urgência que a vida moderna nos impõe, não podemos abdicar de averiguar – cuidadosamente, aliás - como estamos nos saindo na capacidade de ouvir. Contrariedades, reveses e problemas, em maior ou menor grau, permeiam a vida de todos nós humanos. Mas, às vezes, tendemos a achar que os nossos são muito maiores, mais complexos e complicados do que os dos outros. Desse modo, não raro, descarregamos em nossos interlocutores toda a carga de desajuste emocional que nos envolve. Ao fazê-lo podemos estar esquecendo que eles podem estar enfrentando situações incomparavelmente piores do que a nossa.  

Por isso, saber ouvir é, essencialmente, um ato de caridade e sabedoria. Muitos que nos abordam precisam, apenas, do providencial remédio de serem ouvidos com alguma paciência. Ademais, na vida não se evolui sem a dilatação de tal capacidade. Com efeito, homens e mulheres de grande responsabilidade e competência exercitam esse recurso a fim de melhor abalizar as suas decisões. Desse modo, se soubermos ouvir, aprenderemos sempre. Além disso, há momentos que o melhor a fazer é simplesmente nos calarmos. Como recomendou o apóstolo Tiago, “Mas todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (1: 19).

Nesse diapasão, o Espírito Joanna de Ângelis, em Florações Evangélicas (psicografia de Divaldo Pereira Franco), observa: “Receptores são os ouvidos, por cujos condutos as vozes da vida atingem o espírito eterno, momentaneamente revestido pela matéria, de forma a ajudá-lo no crescimento e na evolução”. 

Estendendo o raciocínio, o Espírito Emmanuel ensina, na obra Caminho, Verdade e Vida (psicografia de Francisco Cândido Xavier), que “Analisar, refletir, ponderar são modalidades do ato de ouvir. É indispensável que a criatura esteja sempre disposta a identificar o sentido das vozes, sugestões e situações que a rodeiam”. Para ele ainda, “Sem observação, é impossível executar a mais simples tarefa no ministério do bem. Somente após ouvir, com atenção, pode o homem falar de modo edificante na estrada evolutiva”.

Já o Espírito André Luiz, no livro Sinal Verde (psicografia de Francisco Cândido Xavier), recomenda a necessidade de educarmos a visão e a audição, pois, “Em qualquer circunstância, é preciso não esquecer que podemos ver e ouvir para compreender e auxiliar”.

Concluindo, vale relembrar as sublimes orientações de Emmanuel, contidas na inspiradora obra Palavras da Vida Eterna (psicografia de Francisco Cândido Xavier) – ou seja:

“Ouvidos... Toda gente os possui.

Achamos, no entanto, ouvidos superficiais em toda a parte.

Ouvidos que apenas registram sons.

Ouvidos que se prendem a noticiários escandalosos.

Ouvidos que se dedicam a boatos perturbadores.

Ouvidos de propostas inferiores.

Ouvidos simplesmente consagrados à convenção.

Ouvidos de festa.

Ouvidos de mexericos.

Ouvidos de pessimismo.

Ouvidos de colar às paredes.

Ouvidos de complicar.

Se desejas, porém, sublimar as possibilidades de acústica da própria alma, estuda e reflete, pondera e auxilia, fraternalmente, e terás contigo os 'ouvidos de ouvir', a que se reportava Jesus, criando em ti mesmo o entendimento para a assimilação da Eterna Sabedoria”.

Por Anselmo Ferreira Vasconcelos para O Consolador em Artigos, número 621