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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Certezas da vida

Possivelmente já tenhamos ouvido a expressão: A única certeza que temos na vida é que vamos morrer. Esta frase nos fala da naturalidade do fenômeno da desencarnação, que acontecerá com todos, cedo ou tarde.

Ela carrega um sentido de inevitabilidade pessimista, isto é, de que a única certeza que teríamos na existência terrestre seria de algo terrível.

Precisamos rever esses conceitos.

Primeiramente retirar da morte do corpo esse peso tão grande, esse fardo de fim definitivo que ela carrega. Não há fim de tudo. Somente fim de uma etapa, de um capítulo do grande livro da existência de cada Espírito.

Em segundo lugar, o que também é preocupante na expressão, é essa visão de que não temos certezas na vida. Essa mentalidade gera insegurança, medo, causadores de muitos dos transtornos psicológicos que jorram aos borbotões pelos consultórios especializados.

Não, essa não é a única certeza que temos.

Quando passamos a enxergar a existência e a nós mesmos, sob o ponto de vista espiritual, além da casca material, ganhamos muitas outras certezas.

A certeza de que a encarnação é uma oportunidade sem igual de crescer, de aprender, de amadurecer a alma. A certeza de que o amor que cultivamos será colhido em algum momento, seja no hoje ou no amanhã. A certeza de que os laços de amor que criamos ou fortificamos permanecem conosco para sempre. Nada se perde. A certeza de que não há injustiçados nesse mundo, embora ainda haja tanta injustiça. A certeza de que há uma inteligência maior no leme, no comando de tudo e que não precisamos nos desesperar quando as coisas saem do nosso controle. A certeza da vida, antes da certeza da morte. A certeza de que cada minuto importa, de que cada dia é um tesouro inestimável.

*  *   *

Ante a fragilidade da vida material, da vida do corpo, percebamos a resistência e a exuberância da vida da alma.

Um vírus imperceptível pode nos fazer adoecer e pode nos levar a passar pelo umbral da morte a qualquer instante.

No entanto, que isso não revele nossa fraqueza e sim nossa grandiosidade.

Somos Espíritos e temos um corpo, lembrando de que esse temos não traduz posse, pois não há propriedade absoluta no campo da materialidade.

Somos Espíritos e essa essência só avança, não retrograda e não tem fim. Estamos aqui de passagem. A Terra é escola, é hospital, é campo de semeadura.

Que possamos usar o tempo que temos para nos educar, para nos curar e para trabalhar sempre pelo bem.

Não nos deixemos desanimar perante as crises, perante os momentos de sofrimento. São as provas escolares apenas, que se realizam a cada término de período letivo.

Passemos bem pelas avaliações, sejamos alunos aplicados neste mundo de provas e expiações e logo poderemos merecer fazer parte de uma escola melhor, da escola da regeneração.

Esta é mais uma certeza que temos: de que a dor não dura para sempre e de que podemos ser hoje melhores do que fomos ontem.

Redação do Momento Espírita. Em 17.8.2020.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Reencarnação no mundo: uma ideia disseminada

Povos dos mais variados cantos do planeta têm a reencarnação em seu sistema de crenças

Onde estão as pessoas que acreditam em reencarnação hoje em dia? O quadro a seguir, baseado em texto de Jim Tucker (o pesquisador que tem dado sequência ao trabalho de Ian Stevenson na Universidade de Virgínia), fornece uma panorâmica a respeito dessas comunidades e das principais semelhanças e diferenças que seus conceitos de reencarnação apresentam.

HINDUÍSMO – Para os hinduístas, a alma é imortal; após a morte, passa um tempo variável em outro plano de existência e depois retorna, associada a outro corpo. As condições nas quais o ser nasce são derivadas de seu carma, ou o resultado de sua conduta nas suas vidas anteriores. Por isso, é possível reencarnar como vegetal ou animal, ou com sexo diferente do experimentado na encarnação anterior. A vida na Terra é considerada indesejável, e para não voltar a este plano o ser deve seguir determinados preceitos religiosos. Quando atinge o grau evolutivo em que suas ações só resultam em conseqüências positivas, o indivíduo interrompe o ciclo de renascimentos e se une em definitivo ao mundo espiritual (nirvana).

BUDISMO – O conceito de reencarnação budista é derivado do hinduísmo, com algumas diferenças. O budismo theravada (mais comum no sul da Ásia) propõe a doutrina de anatta, pela qual a morte encerra a existência de um ser, mas serve de base para o nascimento de um outro, primeiramente em um plano não-material e depois no reino terrestre. A lei de ação e reação, ou carma, também interfere nesse ciclo, motivo pelo qual os budistas preferem falar em renascimento, em vez de reencarnação. As vidas podem se suceder por vastos períodos de tempo, e nelas também pode haver nascimento com troca de sexo ou em forma não humana (inclusive como deuses, que para Buda têm existência transitória). A ruptura desse ciclo e a conseqüente chegada ao nirvana só vêm quando todos os vícios são dominados.

XIISMO MUÇULMANO – Alguns grupos de muçulmanos da Ásia ocidental, como os drusos (Líbano) e os alevitas (Turquia), adotam um conceito de reencarnação que não envolve carma nem a possibilidade de renascimento como um ser do outro sexo. Para essas correntes, Deus estabelece que as almas viverão uma série de existências em circunstâncias diversas, as quais não têm relação de causa e efeito entre si; no dia do Julgamento Final, Deus analisa as ações realizadas nessas diferentes encarnações e destina então o indivíduo para o céu ou o inferno. Para os drusos, não há estado intermediário entre uma vida e outra; a reencarnação ocorre logo depois da morte do corpo anterior, e sempre no seio da comunidade drusa. Os alevitas aceitam a possibilidade de o indivíduo reencarnar em forma não humana.

JUDAÍSMO E CRISTIANISMO – A reencarnação não é aceita nas correntes majoritárias judaicas e cristãs. Mas a cabala (conjunto de ensinamentos baseados na interpretação esotérica dos textos sagrados hebraicos) abrange esse conceito, partilhado pelos judeus hassídicos. Seitas cristãs primitivas, como os gnósticos, também adotavam a ideia de reencarnação, baseadas em passagens dos Evangelhos de Mateus e de Marcos nos quais Jesus diria que João Batista era a reencarnação do profeta Elias e no trecho do Evangelho de João em que Jesus conversa com Nicodemos sobre a necessidade de “nascer de novo”. Banida do cristianismo no Concílio de Constantinopla, em 553 d.C., a reencarnação só voltaria aos domínios cristãos pelo espiritismo, no século 19.

ESPIRITISMO – Essa corrente nascida no século 19 do trabalho de codificação do educador e escritor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec) mostra forte influência oriental e da filosofia grega em seu conceito de reencarnação. Também aqui a alma é imortal e faz sua jornada da ignorância à perfeição espiritual por meio de inúmeras vidas no plano material. A reencarnação não é necessariamente imediata; há um período entre vidas, denominado intermissão, com duração variável. As condições da existência atual são explicadas pelo carma produzido em vidas anteriores. Uma vez atingido o estágio humano, não se volta mais à matéria como animal ou vegetal; a troca de sexos, porém, é possível.

ÁFRICA OCIDENTAL – Diversos povos do oeste da África acreditam em reencarnação e, ao contrário dos hindus e budistas, consideram que a vida na matéria é preferível àquela em outro plano de existência. Para esses grupos, os indivíduos geralmente renascem na mesma família e suas almas podem se dividir simultaneamente em vários seres que renascem. Muitos desses povos adotam a ideia de “crianças repetidoras”, pela qual uma alma perturbaria uma família reencarnando e morrendo sempre como um bebê ou uma criança pequena. Alguns desses grupos aceitam a noção de reencarnações não humanas.

ÍNDIOS NORTE-AMERICANOS E INUITS – Os inuits (antes chamados de esquimós) e outras tribos norte-americanas situadas no norte e no noroeste do continente também adotam a reencarnação, embora haja numerosas diferenças de crença entre esses povos. Alguns, por exemplo, aceitam a mudança de sexo; outros, as reencarnações em forma não humana; um terceiro grupo, tal como os africanos ocidentais, acredita que a mesma alma pode reencarnar simultaneamente em diversos corpos. Muitos não consideram que todos os indivíduos têm de renascer; nesse sentido, sua atenção está mais voltada para pessoas que têm morte prematura, como crianças que renascem na mesma família ou guerreiros que reencarnam com marcas de nascença associadas a seus ferimentos.

Fonte: Site da Revista Planeta

terça-feira, 12 de março de 2019

O Livre Arbítrio

O que o Espiritismo nos revela sobre o nosso livre arbítrio, será que possuímos totalidade ou ela é limitada?

Todos nós fomos educados no Cristianismo que somos detentores do Livre Arbítrio, e que podemos fazer o que quisermos, mas há uma contrariedade nisso, pois dentro do mesmo Cristianismo é dito que cada pessoa possui o seu destino e que ele já está traçado.

Se o destino já está traçado e possuímos o Livre Arbítrio, não haveria nisto uma contrariedade? Vamos tentar meditar nas próximas linhas sobre o assunto com base na doutrina espírita.

Primeiramente precisamos conhecer o que os Espíritos Superiores responderam a Kardec sobre o tema: Livre Arbítrio.

"Pergunta 75 -  Por que a razão não é sempre um guia infalível?
– Ela seria infalível se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e o egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha e dá ao homem o livre-arbítrio. Livro dos Espíritos"

Entenderemos no posicionamento dos Espíritos que o Livre Arbítrio é uma característica predominante dos seres possuídores da racionalidade, pois o instinto é uma condição animalizada que nos dá a potencialidade de exercer o seu sentimento e as suas necessidades, já a razão nos possibilita a necessidade de pensar, racionar, utilizar a inteligência e desta forma, escolher qual é a melhor opção.

"Pergunta 121 – Por que certos Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?
– Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não os criou maus, criou-os simples e ignorantes, isto é, com aptidão tanto para o bem quanto para o mal. Aqueles que são maus, assim se tornaram por sua vontade. O Livro dos Espíritos"

Na resposta da pergunta 121, os Espíritos comentam que através do Livre Arbítrio é que fazemos as nossas escolhas, ou seja, podemos ser Bons ou Maus, tudo depende do caráter da criatura, pois o Mau é uma escolha que o próprio Espírito decide, e não é um atributo da divindade.

"Pergunta 258 – Quando no estado errante e antes de se reencarnar, o Espírito tem a consciência e a previsão das coisas que lhe sucederão durante a vida?
– Ele próprio escolhe o gênero de provas que quer suportar e é nisso que consiste o seu livre-arbítrio. O Livro dos Espíritos"

Podemos dizer que o destino não existe, o que há, na verdade, é um roteiro traçado pelo próprio Espírito que ao tomar consciência de suas faltas do passado e das conquistas necessárias para o futuro, construirá um roteiro com necessidades expiatórias ou provativas que precisará na vida futura.

No entanto, o Espírito reencarnante contará com o apoio de Espíritos técnicos em reencarnação, que estudará o seu caso em particular e em conjunto estabelecem metas para aquela reencarnação futura. Neste caso, os Espíritos técnicos não impõem o roteiro necessário que o reencarnante precisará para ter sucesso, mas poderá auxiliar e elucidar o reencarnante.

Uma vez reencarnado, o Espírito, poderá com o decorrer de sua vida realizar escolhas opostas àquelas que ele havia determinado para sua própria reencarnação, por necessidade ou por escolhas próprias de sua sabedoria ou inferioridade.

Os Espíritos nas condições de reencarnantes compulsórios os técnicos em reencarnação criam um roteiro necessário para a evolução do Espírito reencarnante, sem a interferência e a concordância do próprio Espírito que irá reencarnar, uma vez que eles não possui lucidez e condições primordiais para compreender as Leis Universais. Porém, quando encarnado, possuem estes, o Livre Arbítrio, que oras são limitados pelo seu próprio condicionamento fisiológico e/ou mental.

Comentário de Allan Kardec referente a pergunta 399 - "O Espírito goza sempre do seu livre-arbítrio e é em virtude dessa liberdade que, no estado de espírito, escolhe as provas da vida corporal e que, no estado de encarnado, delibera se as cumpre ou não, escolhendo entre o bem e o mal. Denegar ao homem o seu livre-arbítrio, será reduzi-lo à condição de máquina. O Livro dos Espíritos"

Neste comentário de Kardec, podemos perceber que se o homem não pudesse realizar suas escolhas, ele seria igual a uma máquina programada para cumprir determinadas funções, que podemos chamar de destino, pois o destino nada mais é do que uma programação inviolável e destituída de qualquer liberdade e pensamento.

Ficamos então pensando, se possuímos a liberdade de fazer nossas escolhas, o que dizer quando as escolhas não são as melhores para nós e para a sociedade, nesta questão, na pergunta 735, os Espíritos respondem.

Pergunta 735 – "Que pensar da destruição que ultrapassa os limites das necessidades e da segurança? Da caça, por exemplo, quando não tem por objetivo senão o prazer de destruir sem utilidade?"
– Predominância da bestialidade sobre a natureza espiritual.

Toda destruição que ultrapasse os limites da necessidade, é uma violação da lei de Deus. Os animais não destroem senão por suas necessidades; mas o homem, que tem o livre-arbítrio, destrói sem necessidade. Ele prestará contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, porque é aos maus instintos que ele cede. O Livro dos Espíritos"

Porém o nosso Livre Arbítrio é limitado e está alinhado a nossa evolução espiritual, quanto mais evoluído somos, maior liberdade teremos e quanto mais inferiorizado for o Espírito gozará de menor liberdade.

Desta forma, podemos afirmar, que só podemos gozar de um Livre Arbítrio limitado e que essa limitação irá diminuindo à medida em que vamos despertando virtudes e valores divinos e compreendendo as Leis do Criador, porém, a liberdade total não será possível gozar, pois sempre teremos o Criador como o Consciência Suprema do Universo que fará com que cumpramos e sigamos as Leis Divinas por Ele designadas.

Texto de Jeferson Souza publicado no site Espiritismo na Prática

segunda-feira, 4 de março de 2019

O espiritismo pode consolar, mas não deve alienar, por Dora Incontri

Há tragédias tão dolorosas para o ser humano, que só alguma forma de fé pode emprestar algum sentido ou confortar um tanto o coração

A reencarnação não te ensina a esperar, mas a lutar! - José Herculano Pires (1914 – 1979)

Todas as tradições espirituais, desde que vividas de forma saudável, sem fanatismo e intolerância, têm o poder de dar resiliência, conforto e esperança diante das adversidades da vida. Nos últimos 40 anos, há pesquisadores em respeitáveis universidades internacionais, que estudam o impacto positivo da espiritualidade na saúde humana. Harold Koenig, psiquiatra da Universidade de Duke, por exemplo, escreveu um livro de mais de mil páginas estudando as relações entre Religião e Saúde, Handbook of Health and Religion, em coautoria com Dana King e Verna B. Carson, publicado pela Oxford University Press. Em português, temos dele um livro mais resumido que é Medicina, Religião e Saúde: o encontro da Ciência e da Espiritualidade, pela Editora LPM.

Os espíritas em geral apreciam esse tipo de pesquisa porque vem corroborar, primeiro, a ideia de Kardec de que seria possível estudar cientificamente aspectos da espiritualidade; segundo, porque confirma o que ele mesmo também dizia a respeito dos efeitos positivos da prece, da fé racional, do engajamento num caminho sincero de ligação com Deus.

Há tragédias tão dolorosas para o ser humano, que só alguma forma de fé pode emprestar algum sentido ou confortar um tanto o coração. É verdade que autores nihilistas consideram que buscar apoio numa crença qualquer de transcendência significa fraqueza e covardia, porque nesse caso, o ser humano não está vivendo autenticamente (para citar uma expressão de Heidegger), enfrentando a realidade de sua finitude, com toda a angústia dela decorrente.

Hoje, ficamos sabendo da triste notícia da morte do neto de Lula, uma criança que parte por uma doença fatal. Há dor mais terrível do que a morte de um filho ou de um neto? Sabem aqueles que passaram por isso, que uma crença, uma esperança ou uma certeza (que os espíritas afirmam ter) da realidade da vida após a morte é algo que alivia um pouco – embora apenas um pouco – uma tragédia dessas.

Como o espiritismo propõe uma prática de comunicação com os que partiram dessa vida, ter notícias de quem está do outro lado da margem é algo que conforta mais ainda, além de uma simples crença ou esperança de imortalidade da alma. Essa prática de comunicação com o além, dada a institucionalização do espiritismo no Brasil, perdeu a espontaneidade e a naturalidade com que Kardec a encarava. Nos primórdios do espiritismo na França e também durante as primeiras décadas do século XX no Brasil, até mesmo quando eu era criança nos anos 60, faziam-se sessões mediúnicas em casa e Kardec pressupunha que esse tipo de comunicações, em ambientes familiares, harmoniosos, eram mais confiáveis e mais propícias a entrarmos em contato com nossos queridos. Para isso, ele escreveu O Livro dos Médiuns, para orientar quem quisesse, numa prática mediúnica segura e controlada, em qualquer tempo ou lugar, sem necessidade da tutela de instituições.

No Brasil, nas últimas décadas, a mediunidade livre, espontânea, mas embasada nas orientações de Kardec, deu lugar ao estrelismo mediúnico, em que milhares de pessoas desesperadas vão em busca de um determinado médium (confiável ou não, ou às vezes inicialmente confiável, mas que depois se perde com a fama e com natural incapacidade de atender a todos). Isso acaba criando idolatria e dependência psíquica.

Também no Brasil, o espiritismo, visto nesse seu aspecto “consolador” – vai caminhando para formas de alienação social e política. A consolação passa a ser uma espécie de anestésico diante das injustiças, das calamidades sociais, da estrutura desumana da sociedade.

Porque sim, se há tragédias que independem da vontade e da participação humana, que simplesmente se abatem sobre nós, sem que ninguém tenha responsabilidade pelo ocorrido, há inúmeras outras, como todas as formas de violência, fome, discriminação, negligência, abandono, corrupção – que decorrem inteiramente da canalhice de muitos ou de alguns, da estrutura injusta da sociedade, da desumanização do humano. E então, não basta dar explicações reencarnatórias ou nos confortarmos na prece. É preciso assumir uma atitude de luta, uma consciência da necessidade de mudar as estruturas sociais que permitem as aberrações diárias a que assistimos.

Aí também é preciso reconhecer que a luta amparada por uma perspectiva de eternidade confere mais serenidade. Olhar o mundo caótico em que vivemos, com a plena consciência das forças e dos interesses econômicos que massacram milhões de pessoas, que arrasam com a natureza, que arrancam vidas prematuramente – pode sem dúvida nos deprimir profundamente e até nos paralisar a ação. A sensação de impotência diante da estrutura brutal em que estamos mergulhados talvez seja uma das causas mais importantes do adoecimento psíquico em massa que observamos hoje, e que inclusive induz muitos ao suicídio.

Então, sim, o olhar consciente do que é preciso mudar, com o olhar espiritual de que há uma espécie de garantia universal, eterna de que o bem sempre vence, de que um dia todos evoluem, confere um respiro para a luta, empresta uma esperança diante das perdas e dos obstáculos. Como dizia Gandhi, numa frase que nunca me esqueço e estou citando de memória, no filme de Richard Attenborough: “quando me desespero, lembro-me que todos os tiranos passaram e que todos os impérios caíram”. Nesse momento, o Mahatma compreendia que a dinâmica da vida é a mudança e que todo mal é efêmero.

Publicado no site dO Jornal de Todos os Brasis